terça-feira, 19 de setembro de 2017

Lido: Y3K

Há um tipo de texto que me desagrada sobre todos os outros. Aqueles textos pretensiosos, carregadinhos de vontade de ser o que não são, armados em carapaus de corrida. Na literatura aparecem muito pelas mãos de autores medíocres, que dominam mal a sua arte e não sabem dela o suficiente para realmente conseguirem alcançar os efeitos que pretendem alcançar. E se falo aqui de literatura, como é óbvio, falo de toda, sem excluir aquele seu ramo chamado ficção científica.

Nos anos 80 e 90 do século passado (e ainda hoje, a bem dizer), o ciberpunk deu origem a muitos textos desse género, porque a fusão de drogas com realidades virtuais que tão típicas são (umas e outras) do subgénero cria as condições ideais para esse tipo de escritor tentar criar textos alucinatórios, cheios de experimentalismo. Alguns desses textos, muito poucos, até acabaram por resultar bem. Os outros...

Os outros são como este. Escrito em segunda pessoa por nenhum motivo discernível (além da tentativa de ser inovador, claro), é um texto de FC que não é ciberpunk mas é claríssimo ter sido fortemente influenciado pelo subgénero, tendo como protagonista um viciado numa droga camada Zombie que aparentemente faz uma viagem no tempo. Mas como o texto está escrito em segunda pessoa, é como se fosse o leitor o viciado em Zombie, o leitor o viajante no tempo, e logo até ao longínquo ano 3000, (não é spoiler; já está no título de Y3K) apesar de encontrar lá tecnologia perfeitamente reconhecível para um leitor do final dos anos 90, e gente a falar uma língua absolutamente percetível, absurdo que só não são maiores porque fica a pairar no ar a hipótese, bastante mais provável, de tudo não passar de efeitos da tal droga. Tudo numa prosa que está sempre mais preocupada em arredondar frases e criar atmosferas (que até cria, mas basta-lhe uma página para isso) do que em criar um enredo com pés e cabeça. Não é bom quando isso acontece.

Ou seja e resumindo, Jesús de León Serratos, apesar de nem escrever mal, tentou na minha opinião dar um passo maior do que a perna. E estatelou-se. Acho este conto bastante fraco.

Contos anteriores deste livro:

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