quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Lido: Dilema

Publicar-se este conto de Connie Willis imediatamente a seguir a Que Pena!, de Isaac Asimov, foi tudo menos casualidade. É que Dilema (bibliografia) (e dificilmente um título poderia ser mais adequado) é uma espécie de "fanfic oficial", um conto ambientado no universo asimoviano dos robôs de cérebro positrónico, sujeitos às celebérrimas Três Leis. E claro que estas estão no centro de tudo, mas há aqui uma ironia adicional que, apesar de tudo (esta é exclusiva para iniciados à personalidade do "bom doutor"), só outro autor poderia pôr em prática: é que Isaac Asimov, o próprio, é um dos protagonistas do conto.

Começa este com um grupo de robôs que exigem falar com Asimov, esbarrando numa barragem de evasivas. Ainda assim, rapidamente o dilema fica claro, tornando igualmente claro o motivo da tentativa de visita. É que os robôs se sentem impossibilitados de exercer as suas tarefas por serem obrigados a obedecer à Primeira Lei, pois por vezes é necessário fazer um pequeno dano a um ser humano para se conseguir um bem maior (e Connie Willis dá vários exemplos, incluindo talvez o mais claro de todos: uma injeção, tantas vezes fundamental na medicina moderna, implica causar um pequeno dano ao paciente) e pretendem que Asimov a revogue.

Ou será que não?

O conto desenvolve-se ao típico jeito asimoviano: Connie Willis cria e explica um dilema lógico com base nas Três Leis e desenvolve-o até à sua conclusão, mas a história é também — ou talvez sobretudo — uma homenagem irónica e frequentemente iconoclasta ao próprio Asimov. Porque põe as Três Leis em causa, sim, mas não só. Porque está repleta de referências e rasgadíssimos elogios à obra do Bom Doutor e porque mostra Asimov como um vaidosíssimo pescador de adulação. O resultado é um conto bastante divertido e razoavelmente interessante em termos de exploração intelectual da situação criada.

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