segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Lido: Muitas Mansões

Vamos usar a imaginação? Bora lá.

Imaginem que a viagem no tempo é possível, não através de máquinas especiais ou cartões cronais, mas por intermédio de túneis dimensionais, que ligam locais específicos do espaçotempo e podem ser usados por qualquer um que conheça a sua localização. Imaginem que este facto permite que uma série de raças alienígenas tenham vindo a utilizar a Terra como domicílio temporário, muito à semelhança do que acontece na série de filmes Men in Black, com a diferença de que não estamos a falar apenas do presente mas de toda a história do planeta. Imaginem que, também à semelhança do Will Smith e amigos, existe uma força policial secreta com a função de manter alguma ordem no planeta, a Guarda Transtemporal, uma força multi-específica com a sua hierarquia e os seus operacionais. E imaginem, embora esta parte não exija grande esforço imaginativo, que há criminosos que têm de ser encontrados e detidos.

Mas agora imaginem mais uma coisa: imaginem que um desses criminosos é um perigoso traficante de uma droga terráquea das mais daninhas à escala galáctica, apesar de não ser uma substância química, mas uma ideia: a revelação religiosa.

Se conseguirem imaginar tudo isto, têm na mão os ingredientes com que Alexander Jablokov constrói Muitas Mansões (bibliografia), uma noveleta divertida, muito irónica e razoavelmente movimentada, que leva o leitor a saltitar no tempo, de momento-chave na história das religiões em momento-chave, enquanto vai assistindo, de peripécia em peripécia, a uma demorada investigação policial. Decididamente não aconselhada a leitores religiosos, especialmente se pertencerem à variedade fanática, pois Jablokov é bastante iconoclasta. Faz lembrar os filmes dos MiB, sim, mas também faz lembrar os brasileiros da Intempol, sobre os quais até pode ter tido alguma influência; afinal, esta noveleta foi publicada por lá menos de uma década antes de Eu Matei Paolo Rossi.

No entanto, a história não está livre de alguns problemas. Parece-me, por exemplo, que se começa a tornar algo repetitiva demasiado longe do final. O humor tem um tempo certo para maximizar a eficácia, e a sensação com que eu fiquei ao ler este texto foi que ele ultrapassou demasiado esse tempo certo. Não estou a dizer que não gostei ou o acho mau; estou apenas a dizer que com algumas peripécias (e religiões) a menos o impacto seria provavelmente maior e a piada também. Porque sim, é principalmente o humor que faz mexer esta história. Trata-se de uma crítica bem-humorada ao fenómeno religioso, que usa mecanismos típicos da ficção científica como motor narrativo mas sem os tornar centrais ao que está a ser contado.

Em suma, uma história engraçada, com potencial algo superior ao que foi concretizado.

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