sábado, 6 de janeiro de 2018

Lido: O Elo Perdido

Jeronymo Monteiro é um dos principais pioneiros da ficção científica brasileira e já há algum tempo que eu tinha curiosidade em ler algo seu. Tive essa oportunidade com esta história, O Elo Perdido, e posso desde já dizer que não fiquei desapontado.

Trata-se de uma noveleta muito bem concebida, escrita com uma prosa agradável e dotada de uma apurada noção de ritmo narrativo, sobre um casal que tem um filho e as consequências que daí advêm. Onde está a FC?, perguntarão, com plena justiça. O título dá uma pista: a criança não é uma criança normal; sai simiesca.

O conto data de 1947, e, embora não tenha envelhecido da melhor forma possível, enquadra-se bastante bem nas ideias em voga na época e na ficção científica que então se fazia, inspirando-se na teoria da recapitulação ontofilogenética que está hoje posta de parte mas ainda era corrente nessa altura. Não sabem de que se trata? É a teoria, organizada nos anos 20 do século XIX, segundo a qual os organismos repetem (recapitulam) a sua evolução durante o desenvolvimento larvar ou fetal, para o que se usa muitas vezes como exemplo as fases ("de peixe", "de girino", "de mamífero de cauda", etc.) por que passa o feto humano. E Monteiro imagina o que aconteceria se nascesse uma criança atávica, com todas as características de um macaco, e cria a sua história a partir daí.

E é uma boa história, independentemente da incorreção da ciência. Há algo no estilo de Monteiro que faz lembrar H. G. Wells, o que é uma ótima referência, e este seu conto tem pontos de contacto com A Ilha do Dr. Moreau, outra ótima referência, cuja ciência, já agora, também é muito incorreta, o que não o impede de ser um ótimo livro. O Elo Perdido é uma história sobre a xenofobia e a intolerância, que se lê ainda muito bem e, se vista sob esse prisma, mantém toda a relevância. Este é outro conto que não ficaria deslocado numa eventual antologia da melhor ficção científica já escrita no Brasil.

Contos anteriores deste livro:

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