domingo, 24 de dezembro de 2017

Lido: Os Exilados

E por falar em Marte...

A ficção especulativa, ou literatura fantástica em sentido lato, ou literaturas do imaginário, chame-se-lhe como se prefira, tem várias facetas. Mas se algumas obras estão bem definidas enquanto ficção científica, fantasia, horror, etc., outras há que resistem a serem encaixotadas univocamente num dos (sub)géneros. Assim surgem os híbridos. Frankenstein, de Mary Shelley, por exemplo, é uma obra de horror mas também de ficção científica, na mesma medida em que as obras da franquia Star Wars podem ter a aparência superficial de ficção científica mas a estrutura e muitos dos temas são típicos da fantasia. E poderia dar muitos mais exemplos, tanto na literatura como fora dela.

Em Os Exilados (bibliografia), Ray Bradbury apresenta um desses híbridos. O conto abre com três estranhas bruxas a fazer bruxedos, e sem a conversa sobre híbridos que está ali em cima o mais certo era que quem estivesse a ler isto coçasse a cabeça, confuso, sem perceber bem o que terão três bruxas a ver com Marte.

Pois a resposta começa a desenhar-se à segunda página, quando deparamos com uma nave espacial em rota para Marte, na qual estranhos acontecimentos se vão sucedendo, e percebemos que as bruxas são apenas uma forma de defesa de Marte contra a invasão terrestre. Mas é mais do que isso, pois a Terra futura que Bradbury nos esboça é, mais uma vez, o reino do racionalismo científico onde não existe espaço para a imaginação, e todos os grandes escritores de horror gótico, ou pelo menos os seus fantasmas, estão exilados em Marte. Este assalto do racionalismo, retratado como frio e desumano, contra a imaginação corporizada pelo Halloween e pela literatura que lá vai buscar inspiração é um tema recorrente nas ficções bradburianas, transformando, em certa medida, algumas das suas ficções científicas em ficções anticientíficas.

O problema, no entanto, é outro. O problema é o mesmo que acomete todos os autores que escrevem repetidamente sobre os mesmos temas ou das mesmas formas: as suas ficções tornam-se repetitivas e previsíveis. Bradbury tem sobre muitos a vantagem de ser um escritor magnífico, mas mesmo assim contos como este ressentem-se quando quem os lê já conhece bastante bem a sua obra.

E é em boa parte por isso que não creio que este conto seja dos melhores do autor.

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