quinta-feira, 27 de julho de 2017

Lido: Filosofia Verde

Será muito estranho ler um conto de Agustina Bessa Luís, autora das mais reconhecidas pelos bem-pensantes literários, e lembrar-me dos ambientes do Telmo Marçal, cultor de uma das mais menorizadas facetas da literatura, a ficção científica? Se é, foi o que aconteceu com esta Filosofia Verde. Trata-se de um conto macabro, mas não é bem esse o motivo por que me trouxe à memória as ficções do Marçal. Essa evocação foi questão de protagonistas e de ambiente. Nesta história, aqueles são dois homens (principalmente um) que assumiram como ofício recolher vítimas de morte súbita que caiam fulminadas na rua, numa cidade sem nome mas perigosamente fria, tratando a morte e a degradação da sua própria condição com o mesmo à-vontade fatalista que os protagonistas de Marçal apresentam. Este é uma cidade tão assolada pela morte que permite a existência de quem ganhe a vida simplesmente ficando de atalaia à espera que alguém caia de repente sem vida na rua, contando depois com as recompensas que familiares imagina-se que chocados mas certamente gratos lhes darão. Trata-se de uma ideia inerentemente fantástica, com tudo a ver com as distopias absolutas que encontramos nas histórias do Telmo Marçal, embora Agustina não torne o facto explícito. É aí que as histórias mais divergem, e também no substrato ideológico que lhes subjaz, pois ao passo que Marçal nunca dá às suas criaturas quaisquer elemento de esperança, não encontra nada que redima as suas personagens, Agustina escreve, no fundo, sobre o valor da amizade mesmo nas piores circunstâncias. E também na qualidade da prosa, pois Marçal, sendo bom no manejo da língua, não chega no entanto perto de Agustina.

Dito isto, vou ter aqui uma decisão a tomar quando chegar a altura de integrar no Bibliowiki as histórias desta antologia: serão os elementos fantásticos neste conto suficientes para merecer inclusão? Felizmente é decisão que pode ficar para mais tarde. Para já, leva a etiqueta, mas mais para não me passar ao lado por distração do que por outro motivo. Depois decidirei em definitivo.

Contos anteriores deste livro:

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