quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Lido: Narrativa Sombria, Mais Sombrio Narrador

Há contos que não são nada aquilo que deles se espera. Bem sei que comecei uma opinião com uma frase muito parecida há pouquíssimo tempo, mas convenhamos que pegar num conto com o título de Narrativa Sombria, Mais Sombrio Narrador e descobrir uma história carregadinha de humor e fina ironia é caso para um pequeno desabafo como este.

Mesmo sendo o humor razoavelmente negro (sombrio, diria até) e tendo o conto muito de insólito. Trata-se de um daqueles contos, muito em voga no século XIX e início do XX, nos quais um grupo de cavalheiros se reúne para contar histórias. Villiers de l'Isle-Adam, no entanto, não nos apresenta a história de fantasmas ou espantosas sobrenaturalidades que tantas vezes é o resultado literário de tais reuniões, mas sim uma história relativamente prosaica sobre um duelo de honra, ao qual o narrador da história teria servido de testemunha.

Contudo, e é aqui que entra tanto a ironia como o insólito, tudo é encarado pelos ouvintes como se de uma encenação teatral ou uma criação dramatúrgica se tratasse. Não que o duelo em si mesmo tivesse sido uma farsa; pelo contrário, dele resultaram mortes. Mas mesmo assim, toda aquela gente só parece interessada em discutir os méritos do enredo, os clichés, as qualidades histriónicas dos "atores," por aí fora. Adam parece rir de dois coelhos com uma só cajadada: do artificialismo e alienação das gentes ligadas ao teatro, por um lado, e da teatralidade fundamentalmente ridícula dos duelos de honra por outro.

Outra forma de olhar para esta história poderá encontrar nela uma certa fragilização do tecido da realidade, o que colocaria Adam como predecessor de algo que foi desenvolvido com grande profundidade, várias décadas mais tarde, por muitos escritores de ficção científica, com Philip K. Dick à cabeça. Mas pessoalmente duvido que fosse essa a intenção do autor. Seja como for, esta é uma história com claro interesse.

Conto anterior desta publicação:

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