quarta-feira, 14 de junho de 2017

Primeira Gralhalândia (excerto)

Primeira Gralhalândia (título muito provisório) está previsto como um divertimento razoavelmente absurdista, razoavelmente longo, construído a partir das gralhas que me foram acontecendo ao longo dos anos e fui deixando no twitter sob a tag genérica de #gralhalandia. Por ordem. O desafio é, com isso, escrever uma história coerente, e ainda estou muito longe de saber se consigo. Talvez chegue ao tamanho de romance, mas é cedo para perceber. Para já estão escritas menos de 2000 palavras.

O que se segue é o início.

Primeira Gralhalândia

Desta vez, cheguei à Gralhalândia num dia de tempestade. Chovia a potes. Trovejava ao longe. O vento soprava emborrascado, aos arrancos, de direção indefinida. Apresentei-me na fronteira, a pé, segurando como podia o guarda-chuva por cima da cabeça. Ia munido dos documentos obrigatórios e de alguns facultativos, e esperei. A Gralhalândia é sítio de bizarra tecnologia, diferente do resto do mundo. Se cá fora sabemos mais ou menos com o que contar e as redes informáticas permitem, aparentemente, tudo e mais umas botas, ali as coisas são mais complicadas. Ora podemos ver-nos mergulhados em utopias cibernéticas dignas do mais otimista ciberpunk — e sim, na Gralhalândia existe esse gambozino da ficção científica, o ciberpunk otimista —, ora podemos achar-nos mergulhados num atraso de vida medieval ou mais antigo ainda. É conforme os apetites da deidade enlouquecida que manda no local. Ou de algum ET munido de um sentido de humor perverso. Ou de outra coisa qualquer. Ninguém sabe. Por outro lado, eu, como não sou ninguém, não sei.
Só sei que esperei até me doerem as pernas e ficar com os pés enregeladinhos de tão molhados. Mas por fim lá me abriram a porta. Um guarda de fronteira barrigudo e com um farfalhudo bigode mandou-me entrar com um gesto enquanto roía os restos de uma sandocha. Apresentei-lhe os documentos, ele passou-lhes uma rápida vista de olhos aborrecidos e assomou-se a uma sala contígua, berrando lá para dentro:
— Ó Aleido! Anda cá, Aleido!
Devo esclarecer, num parêntesis rápido, que, devido às frequentes visitas que faço ao país, já falo fluentemente gralhalandês, tanto quanto é possível seja a quem for falar tal língua com fluência. Se isto fosse um daqueles questionários sobre o domínio de línguas estrangeiras, a cruzinha cairia sobre “experiente”. O que isso significa é que ela me causa frequentes perplexidades, e não raro não a entendo de todo, no que tenho a companhia da quase totalidade dos próprios gralhalandeses. E só não afirmo que é de todos porque, enfim, não os conheço a todos.
Portanto, percebo a língua.
Mais ou menos.
Digamos que dá para o gasto, e arrumemos assim o assunto e o parêntesis.
Ia eu dizendo que da sala saiu um jovem, coberto de borbulhas, vestido com um berrante uniforme vermelho estrambolicamente decorado com dragonas, botões dourados, cordões, a parafernália completa de um ditador sul-americano. Ao peito, entre medalhas que tilintavam a cada passo (é que, ainda por cima, o tipo coxeava violentamente da perna direita), uma placa informava, entre berlicoques policromáticos:

ALEIDO CASTÁLIO
ESTAFETA REAL

— Chamou, chefe? — disse o jovem coxo, todo prestável.
— Chamou chefe, chamou chefe — resmungou o barrigudo bigodudo. — Claro que chamei. Se cá vieste ter é porque me ouviste chamar, e se me ouviste chamar é porque chamei. Não é?
O jovem coxo abriu a boca, mas não teve oportunidade de lhe dar uso porque o barrigudo bigodudo atalhou de imediato:
— Temos aqui este tipo. Quer entrar. Parece que tem os papéis em ordem, mas é preciso uma assinatura do capitão. Manca chamá-lo.
Abri a boca para corrigi-lo, dizer-lhe que não era manca que se dizia e sim manda, mas um olhar ao modo como o jovem Aleido Castálio, Estafeta Real, saiu a mancar da sala fez-me engolir a objeção.
Na Gralhalândia as coisas são mesmo assim.
Entretanto, o dos bigodes tirara um impresso de uma gaveta, pegara numa anacrónica pena e numa espécie de tinteiro com um ar muito pouco funcional, mergulhara a ponta da pena na tinta e pusera-se a rabiscar, deitando olhadelas aos papéis que eu trazia. Às tantas parou, franziu o sobrolho, procurou qualquer coisa no meio da pequena pilha de papéis que eu lhe entregara e olhou-me, ainda se cenho franzido:
— O amigo não trouxe uma declaração de idoneidade dos pelos públicos?
Abri muito os olhos.
— De quê?!
— Uma declaração de idoneidade de pelos públicos. É obrigatório, sabe?, segundo a lei… — hesitou — deixe ver… — resmungou, folheando um livro de registos. — Ah, cá está. Não é lei, é decreto. Segundo o decreto régio 322, do ano passado. — Ergueu o olhar para mim. — Não conhece? Quer que leia?
— Bem — disse eu, sem saber bem o que dizer — se calhar é melhor. Mas antes disso, se calhar convinha explicar-me o que são pelos públicos.
O guarda soltou uma fungadela divertida.
— Vê-se mesmo que é estrangeiro. Então não se está mesmo a ver? Os pelos públicos são a barba e o bigode, homem! Os outros são privados, não é?
E riu-se.

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