sexta-feira, 23 de junho de 2017

Lido: Histórias da Meia-Noite

Embora este Histórias da Meia-Noite ainda não se inclua nas histórias do autor que são de fantástico reconhecido e "bibliowikiado", ao encontrar o nome de Branquinho da Fonseca contei logo ser provável tratar-se de conto fantástico, pois ele foi um dos principais cultores do género entre nós em meados do século XX. E o próprio título era promissor.

E a história é interessante. Consiste de uma conversa, algures no Portugal rural de outrora, na qual as personagens contam umas às outras histórias de assombrações. Entre o ceticismo e a crença dos seus protagonistas, Fonseca constrói uma história bastante todoroviana, pois o leitor acaba por ficar sem saber bem se o que é relatado pelas personagens aconteceu mesmo, como elas garantem, ou não passa de invencionices como os outros intervenientes na conversa acusam. Tudo numa linguagem rica de oralismos e popularismos, que contribui para situar a história num determinado ambiente sociológico, propício a tais relatos de almas penadas e bruxedos.

(Abro um parêntesis para uma reflexão lateral mas curiosa: é interessante notar que enquanto na literatura inglesa é frequentemente entre as classes abastadas que se desenrolam as histórias de fantasmas, que muitas vezes recorrem a este mesmo expediente de relatos contados numa roda de amigos ou conhecidos, na literatura portuguesa parece ser entre a população mais pobre que mais têm sido ambientadas tais histórias, como se se quisesse com isso dizer que os abastados são demasiado sofisticados para dar algum crédito a tais crendices do povo. O que nos diz isso? Não sei bem. Mas vou pensar no assunto.)

Como disse, a história é interessante. Mas não é história que cause impacto duradouro, talvez porque a amena cavaqueira, os relatos de ouvir dizer, os dichotes e pequenas provocações, não contribuam para criar um ambiente impressionante.

Contos anteriores deste livro:

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