segunda-feira, 8 de maio de 2017

Lido: Soylent Green is People!

Carlos Orsi pode ter cometido um erro ao dar título a esta noveleta. Quem conhece menos mal a história da ficção científica de certeza já ouviu falar do filme Soylent Green e conhece a sua premissa básica. O mais certo será tê-lo mesmo visto. Seja como for, reconhece de imediato a referência contida num título como Soylent Green is People! e quando a história começa e depara com um detetive privado, em ambiente de policial razoavelmente noir mas futurista, fácil é que pense que já sabe onde a história vai dar. E o mais certo é ter razão.

E isso é pena porque retira à noveleta um dos principais motores de mistério que poderiam sustentá-la. Conhecendo-se desde o início, graças ao título, qual irá ser de uma forma geral o desfecho, o interesse é obrigado a derivar para os pormenores, sejam de construção narrativa, sejam de enredo. A sorte, ou melhor, o mérito de Carlos Orsi é conseguir fazer com que estes pormenores bastem para sustentar a história.

Trata-se realmente de uma história policial futurista, muito clássica no sentido de termos como protagonista/narrador o detetive privado que anda a investigar o crime, contratado por um mulherão que o hipnotiza e pretende que ele prove que tem direito à herança de um determinado morto. Não interessa revelar como; esses detalhes e a forma como Orsi entretece neles o seu futuro e a tecnologia que nele existe são boa parte do que faz mover o conto. Direi apenas que tem a ver com uma certa Igreja dos Puritanos, seita fundamentalista que rejeita as alterações corporais e as terapias genéticas e se comporta como uma versão mais agressiva da nossa Igreja Universal do Reino de Deus, e com uma inovação tecnológica revolucionária que pode mudar tudo no que toca à produção de combustível mas é, como de resto todas as inovações tecnológicas, uma faca de dois gumes.

E é uma noveleta bastante boa, também por causa deste sublinhar da ambiguidade inerente à inovação. Embora eu ache que ficaria melhor com outro título, com um mistério mais completo que se sustentasse até ao final, mesmo assim é boa.

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