domingo, 16 de abril de 2017

Lido: Herói da Causa

Pega-se em mais um conto de Telmo Marçal ou, como neste caso, numa noveleta, e já se sabe que o que aí vem é uma absoluta distopia ambientada numa sociedade totalitária em que a vida humana não vale nada e só a crueldade e a prepotência são valores que talvez deem alguma garantia de alguma espécie de sobrevivência. Ou talvez não; talvez nem assim.

Herói da Causa (bibliografia) não destoa. Ornatus Ludiv, o protagonista, é um condenado e por isso é sujeito a todas as violências e torturas imagináveis num sistema prisional cujo único fito discernível é arrancar confissões custe o que custar. Se alguém fizesse perguntas e conseguisse evitar ser atirado para algum calabouço esquecido ou, bem pior, não esquecido, talvez obtivesse a resposta de que os fins, como é timbre dos sistemas opressores, justificam os meios. Mas aos poucos vamos percebendo que não é só isso que Ludiv é.

A questão é que apesar de tudo, como que milagrosamente, subsiste uma resistência ativa, clandestina, composta por subversivos que combatem pela simpatia. E sim, mesmo ali nas trevas sociais das prisões. Segundo acabamos por perceber, Ludiv foi encarregado de se infiltrar nas fileiras dessa resistência para melhor a destruir por dentro. Mas o sistema é o sistema. Apesar de se dedicar tão aplicadamente a infligir o máximo possível de dor a suspeitos e condenados, não deixa de ser impessoal, burocrático, tão indiferente como qualquer sistema. E sendo as ficções de Marçal o que são, Ludiv não poderia nunca deixar de ser vítima disso.

É mais um bom conto, se encarado de forma isolada mas que, no contexto deste livro, se torna previsível. Entre uns contos e outros deste livro mudam os cenários, umas vezes mais, outras menos, mudam um pouco os enredos, mas o que está subjacente às várias histórias pouco se altera, o que as vai tornando um pouco cansativas à medida que se vão sucedendo. E esta, por ser a última, é entre todas a que é mais prejudicada por isso.

Contos anteriores deste livro:

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