sábado, 30 de abril de 2016

Lido: Eu-Próprio o Outro

Eu-Próprio o Outro (bibliografia) é um conto curto de Mário de Sá-Carneiro que constitui mais uma variação sobre vários temas recorrentes na sua prosa. Escrito sob a forma de diário ocasional, conta uma história de atração e fascínio com toques de homossexualidade, protagonizada por um escritor cosmopolita e aborrecido de si mesmo, do mundo e da vida, aquele que escreve o diário, e por um homem misterioso, russo (também não pela primeira vez; o escritor genial que fascina o narrador de Asas é igualmente russo), com o qual o primeiro trava uma amizade inseparável. Aqui, essa amizade acaba numa autêntica metamorfose e, de novo não pela primeira vez, em algo que não se percebe muito bem se é homicídio ou suicídio.

Sendo mais uma variação de uma série de temas já abordados noutros textos, não se pode dizer que haja aqui verdadeira surpresa. Há algumas frases a que os mais sensíveis a esses detalhes facilmente chamariam sublimes, há uma narração eficaz no contexto das limitações a que o registo diarístico obriga, mas surpresa não há. Ou seja: o conto até é bom, mas pessoalmente interessou-me mais enquanto peça de um todo maior, o conjunto de temas obsessivos da prosa de Sá-Carneiro, do que como peça literária independente.

A meros três textos do fim deste livro (que podem conter alguma surpresa, é certo), é curioso verificar quão limitado tematicamente um escritor tão relevante para as letras portuguesas como Sá-Carneiro consegue ser. E incluo neste "tematicamente" aspetos como a ambientação das histórias ou as características das personagens. Aspetos que, claramente, pouco interesse lhe despertavam; o que ele sempre quis foi falar de si próprio. Não é a forma de estar na literatura que mais me agrada, confesso.

Contos anteriores deste livro:

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