quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Lido: The Scar

The Scar é um romance de China Miéville, o segundo da sua série passada no mundo fictício de Bas-Lag, onde uma quantidade apreciável de espécies inteligentes convivem, nem sempre pacificamente, e a vida é vivida em contacto direto com uma espécie de magia mais ou menos científica, conhecida como taumaturgia (thaumaturgy) e uma tecnologia meânica baseada na maquinaria novecentista, e por isso com grandes pontos de contacto com o steampunk.

Com tal ponto de partida pode-se escrever histórias de diversos géneros, consoante o tipo de abordagem que é feita. As histórias de Bas-Lag poderiam ser uma espécie de fantasia steampunk à semelhança de diversos livros e contos recentes, que colam a histórias tipicamente de fantasia, urbana ou não, uma camada steampunk que raramente ultrapassa a superfície da simples estética. Julgo que, mesmo sem ter (ainda) lido os outros romances (eles são independentes, portanto podem ler-se em qualquer ordem), posso afirmar que Miéville não é isso que faz. Pelo contrário: não só a maquinaria pseudovitoriana, mas sobretudo a sociologia que lhe está associada, o capitalismo desenfreado e exploratório, a forma complexa, intrincada e muitas vezes como que suja de óleo ou ferrugem como tudo é retratado enraizam-se profundamente nas mais puras nascentes do steampunk. A parte fantasiosa, sendo embora igualmente central, é tratada quase cientificamente; afinal, não é por acaso que não existe propriamente magia, mas sim taumaturgia, e que esta é retratada como uma disciplina técnica com os seus códigos próprios. E que criaturas que Miéville vai muitas vezes buscar ao horror possuem também nestes seus livros uma solidez muito pouco sobrenatural. Pelo menos neste livro, mas tudo isso constitui uma parte tão fulcral da estruturação do seu mundo que muito me surpreenderia que nos restantes fosse diferente.

E ainda bem que assim é.

A história de The Scar passa-se inteiramente no mar. Bellis, a protagonista, é uma neocrobuzonita (trocando por miúdos: uma cidadã de New Crobuzon, cidade-estado que é uma das principais potências de Bas-Lag e o local onde se desenrolam os outros dois romances da série) que foge da cidade rumo a uma colónia noutro continente porque pensa estar a ser perseguida pelas autoridades. Mas essa viagem é interrompida quando o navio em que segue é atacado por piratas, que o levam, e a toda a tripulação, passageiros e prisioneiros até aí a caminho do desterro, para um lugar extraordinário: a cidade flutuante de Armada, livre e pirata, composta por gerações e gerações de navios capturados e alterados para se fundirem com a cidade. Aí, Bellis, naturalmente revoltada com a sua condição de cidadã à força (e, pelo menos a princípio, de segunda) de Armada, com a lealdade ainda presa à sua pátria, vai ser ao mesmo tempo espetadora e catalizadora de uma série de acontecimentos que vão levar toda a cidade aos mais estranhos confins dos mares de Bas-Lag: a scar a que o título se refere, precisamente.

O livro é brilhante. Escrito com uma prosa de grande qualidade, em que tudo é descrito com uma tal profusão de pormenores, com uma tal texturização, que confere solidez e realidade mesmo às coisas mais extrordinárias, com um grupo razoavelmente numeroso de personagens, as mais importantes, também elas de grande solidez, é daqueles romances que como que abrem portais e sugam o leitor para as suas próprias realidades. Tudo é credível, por incrível que seja. Tudo é verosímil, por mais inverosímil que possa ser. E a história, sempre movida a mistérios por mais que ziguezagueie pelos vastos oceanos de Bas-Lag, em que o esclarecimento de um só serve para criar novas perguntas, nunca perde o interesse. Pelo contrário. As quase oitocentas páginas passam quase sem se dar por isso.

E além disso é um livro com conteúdo. É um livro sobre a identidade, sobre o patriotismo, sobre a lealdade. É um livro sobre a manipulação e as obsessões. É um livro sobre o amor, os sentimentos que não são propriamente amor mas andam por perto dele, e as coisas que por esses sentimentos somos levados a fazer. É também um livro sobre perda (e são múltiplas as perdas que nele têm lugar) e superação da perda. E é, ainda, um livro sobre informação, sobre o seu valor, sobre o perigo que pode advir quer da sua falta, quer da sua posse.

Este é dos tais livros que o Jorge tradutor adoraria traduzir. Seria um desafio: não se trata de um romance fácil. Mas também seria um prazer. Editoras portuguesas, editem este livro, façam esse favor aos vossos leitores. E passem-mo para as mãos.

Prometo aqui solenemente tratá-lo bem.

Este livro foi comprado.

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