sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Lido: Os Sonhos do Jovem Rei

Os Sonhos do Jovem Rei é um conto de Oscar Wilde, em toada de conto de fadas, que no entanto tem um substrato político muito forte. Um príncipe, em vésperas de ser coroado rei, é apresentado como um esteta, desligado do mundo, absorvido apenas com a busca da beleza nas coisas que o rodeiam. Mas eis que a dada altura algo lhe acontece: começa a visitar em sonhos as vidas de alguns dos seus súbditos que contribuem com trabalho, suor e cansaço para o fausto e o luxo de que desfruta, fabricando e recolhendo os apetrechos do poder. E, tomando consciência do privilégio em que vive e da dureza das vidas de quem para si trabalha, fica chocado e decide renunciar a tudo, o que vai ter consequências que não esperava. No fim, são os mais pobres dos pobres que o fazem mudar de ideias e regressar ao fausto.

A mensagem é altamente conservadora: sim, há desigualdade e injustiça, sim, há dor e sofrimento entre os desfavorecidos e luxo e divertimento entre os favorecidos, sim, tudo isso é verdade, mas as coisas são como são porque assim têm de ser, porque alguém tem de governar, porque alguém tem de viver bem para que os outros tenham algumas migalhas de que viver. É um conto de um privilegiado a afagar as consciências, a sua e as dos outros privilegiados, seus leitores, como quem diz: "é horrível, bem sei, coitados dos pobrezinhos, mas sem nós eles morreriam à fome portanto ainda bem que existimos e temos tudo". Ajuizando por esta história, se fosse vivo e português, hoje, Wilde votaria no CDS.

Mas é um bom conto. Detesto a mensagem, não gosto das divagações estéticas do dândi, mas o conto é bom.

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