sábado, 12 de maio de 2012

Lido: A Erva Vermelha

A Erva Vermelha (bib.), de Boris Vian, é um daqueles romances dificilmente classificáveis com que de vez em quando nos deparamos. Trata-se de um romance bastante curto, cujo protagonista é Wolf, uma espécie de engenheiro que constrói ou opera uma máquina que viaja no tempo, aparentemente não o físico mas pelo menos o psíquico, o tempo mental, subjetivo, existente na cabeça de cada um de nós, e que tem como objetivo apagar recordações.

Ficção científica?

O ambiente geral, o cenário, é, realmente, de ficção científica. Wolf vive numa sociedade futurista, e viaja por uma série de realidades subjetivas com grandes semelhanças com as realidades virtuais que tão bem conhecemos do ciberpunk e de obras correlatas. Até está presente a indefinição entre o que é real e o que não é, tão comum na obra de Philip K. Dick e noutra FC mais recente. E isto é de assinalar, em especial tendo em conta que o original deste livro data de 1950.

No entanto, o romance afasta-se claramente da FC quando o olhamos mais de perto. O caráter difuso da trama, o modo como o autor se intromete por vezes nela explanando preocupações próprias, ultrapassando personagens e até a própria trama e substituindo-se a elas, o surrealismo sem peias de longos trechos, aqueles diálogos indiretos, muito à francesa, que quem tenha assistido a filmes franceses dos anos 50 e 60 certamente conhece bem, tudo isso afasta este livro da FC, e principalmente da FC americana que se fazia na época.

E isso é bom? Mau?

A resposta depende, obviamente, dos leitores. Este que aqui escreve tem de confessar que não saiu da leitura impressionado. Tentei gostar, fiz um esforço honesto, mas as preocupações e as iconoclastias do Boris Vian dos anos 50 estão demasiado coladas ao seu tempo para resultarem comigo, nesta segunda década do século XXI (o meu pai teria certamente gostado mais deste livro do que eu, só por causa disto). As iconoclastias já há muito não o são, e, não o sendo, salta demasiado à vista o que o surgimento delas na história tem de artificial. Nunca se chega a perceber porque quer o bom do Wolf deitar as memórias fora e uma das coisas que me parecem mais interessantes nesse ato, isto é, a exploração de até que ponto ao deitar as memórias fora não estará a deitar-se a si próprio, a deixar de ser ele mesmo, nem sequer é abordada. Há sexo, talvez escandaloso em 1950, mas hoje quase puritano. Gastam-se páginas e páginas a descrever a dinâmica de dois casais de namorados nos quais não encontrei interesse nenhum. E etc.

Fica a impressão de um livro escrito ao sabor das mutáveis marés do dia-a-dia, nos intervalos da boémia. De bocados de vida real nele enxertados sem que o autor tenha parado para pensar até que ponto fazem sentido no contexto em que os enfiou. De um puzzle de peças que não se ajustam bem umas às outras.

Haverá decerto quem goste. Eu, nem por isso.

Este livro foi comprado.

2 comentários:

  1. Ah, pois, o Vian…

    (Onde está «perceber porque» não deveria ser «perceber por que»?)

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  2. Esse comentário sobre o Vian é críptico, ó jovem.

    Quanto ao porque/por que... acho que nestas situações há preferência no Brasil por "por que", e em Portugal por "porque". Eu teria escrito "por que" se tivesse acrescentado "motivo" ou "razão"; sem esse acrescento, "porque" soa-me melhor.

    De resto, eu sou partidário da aglutinação. Há, por exemplo, montes de situações em que as regras dizem que se deve escrever "de mais" e que eu prefiro escrever "demais". As regras também se fizeram para ser violadas, quando se sabe como e porquê.

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