terça-feira, 15 de maio de 2012

Lido: Ensaio Sobre a Lucidez

Ensaio Sobre a Lucidez (bib.), é o primeiro (e julgo que único, se bem que, não os tendo ainda lido todos, não arrisque afirmá-lo) romance de José Saramago que funciona como sequela direta de uma obra anterior, ao ponto de apresentar algumas das mesmas personagens do Ensaio Sobre a Cegueira. Os acontecimentos deste livro desenrolam-se na mesma cidade, capital de um país imaginário com inquietantes semelhanças com Portugal, alguns anos depois dos do primeiro Ensaio, e há, entre os dois, uma relação quase de yin-yang, que aliás já está expressa nos próprios títulos. A cegueira branca do primeiro livro é aqui substituída por outro tipo de brancura, a brancura do voto, provocada por uma generalizada recusa por parte do eleitorado em pactuar com uma classe política que não responde às suas ansiedades e desejos e por isso comparece em massa a uma eleição, não para votar num dos três partidos em compita (o PDE, da Esquerda, pequenino, o PDM, do Meio, grande mas minoritário, e o PDD, da Direita, no governo), mas para lhes voltar costas, votando em branco.

A primeira parte do romance mostra a perplexidade dos governantes com o que está a acontecer, e é, a meu ver, a parte menos interessante. Mas quando o governo decide, como forma de punir os habitantes da capital, abandoná-la, retirando-se não só a si, mas a todos os instrumentos de autoridade do Estado, deixando-a isolada, entregue a si própria (embora mantendo-a fornecida dos produtos e serviços necessários à vida quotidiana), o romance começa a ganhar interesse, e maior ele se torna quando sobe à ribalta um grupo de três polícias, encarregados de investigar o grupo que o Ensaio Sobre a Cegueira acompanhou, depois de um dos membros desse grupo ter denunciado os restantes por intermédio de uma carta onde insinuava que eles seriam responsáveis pela "epidemia" de votos em branco.

O resultado é que este romance vai em crescendo, do início ao fim, e, na verdade, as páginas mais tremendas, mais terríveis, mais bem conseguidas, são as últimas. É uma alegoria fantástica, claro. Já o Ensaio Sobre a Cegueira o era, embora pudesse perfeitamente ser também visto como um livro de ficção científica. Neste segundo Ensaio, contudo, o caráter alegórico acentua-se e a ligação à FC esmorece bastante. Se no primeiro Ensaio tudo era rigorosamente credível, se havia uma sensação de verosimilhança em tudo o que era descrito, se a cegueira branca, cuja origem nunca é explicada, se espalha com a clássica propagação de qualquer epidemia, neste segundo Ensaio não. Aqui, temos um sobressalto cívico em que participa de forma espontânea uma parcela significativa da população. Ora, se é credível que uma epidemia de origem desconhecida se espalhe como é próprio das epidemias espalhar-se, se é mesmo credível que essa epidemia se cure sozinha depois da doença chegar ao fim do seu ciclo, como acontece a qualquer doença benigna, já não parece nada verosímil que oitenta porcento da população de uma cidade decida de um momento para o otro voltar costas à sua classe política e votar em branco. Porque nada separa mais as pessoas umas das outras do que as ideias que têm na cabeça. E porque estas têm muitas vezes raízes suficientemente profundas para resistirem até à mais óbvia das evidências.

E esta inveromilhança básica, parece-me, mina todo o romance e reduz o impacto que ele poderia ter. Porque Saramago pretende mostrar como um regime na aparência democrático tem no seu seio as raízes do totalitarismo, como os líderes, privados da autoridade convencional que o voto confere, facilmente resvalam para a autoridade da força, como a decência corre riscos fatais quando confrontada com canalhas. E mostra, com eficácia crescente ao longo do romance. Mas a inverosimilhança da base, do início de tudo, faz com que o leitor encare o resto com dúvidas. Se o que dá origem ao romance não permite suspender a descrença com eficácia, mais difícil se torna suspendê-la com o resto. E isso, a meu ver, diminui o impacto do livro. Diminui a sua eficácia enquanto questionamento da realidade em que vivemos.

Por outro lado, a partir de uma certa altura os acontecimentos vão-se desenrolando com a inexorabilidade de um acidente ferroviário, e o comissário de polícia que se transforma em protagonista é uma das grandes personagens de Saramago. A segunda metade do livro é, realmente, muito boa, e o final, então, é soberbo. Ensaio Sobre a Lucidez não será dos melhores livros do seu autor, e decididamente não é um romance perfeito. Mas é um bom livro. Poderia ser melhor? Julgo que sim. Mas é bom.

Este livro foi comprado.

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