sábado, 5 de agosto de 2017

Os estudos do Pedro Reis

Uma das consequências de eu ter criado e passado dez anos a alimentar o Bibliowiki (até agora) é ter desviado parte das leituras para responder à curiosidade sobre se a publicação Xis ou Ípsilon tem alguma coisa a ver com literatura fantástica e, portanto, se se pode ou não inclui-la no site.

Outra consequência é gastar algum do tempo dedicado ao site a fazer pesquisas na net. Pesquisas sobre as edições deste ou daquele livro, pesquisas sobre termos específicos, enfim, pesquisas sobre as coisas mais variadas. E muitas vezes, dessas pesquisas resultam achados inesperados. Coisas que encontro enquanto procuro outras coisas.

Alguns desses achados são rapidamente enquadráveis. Outros há, contudo, que são gravados no meu disco e lá ficam à espera que eu tenha tempo ou me lembre de lhes prestar atenção. Normalmente durante longos anos.

Vem isto a propósito de um artigo científico que descobri há anos e anos, intitulado "O diagnóstico de concepções sobre os cientistas através da análise e discussão de histórias de ficção científica redigidas pelos alunos" e assinado por Pedro Reis e Cecília Galvão. Mais científico do que este título? Impossível. Talvez tenha sido em parte por isso que ficou a marinar.

Recentemente, peguei nele e li-o. É precisamente sobre o que o título diz, faltando-lhe só explicitar que se trata de alunos do fim do ensino secundário e que as histórias de FC escritas por eles serviram como sintoma indicativo da imagem da ciência e dos cientistas entre a população dessas idades, o que não impediu que eu me sentisse surpreendido. Convenhamos: não é todos os dias que vemos a ficção científica ser usada num estudo académico, especialmente quando não é caso único.

É que depois de ler este artigo (que pode ser encontrado aqui, já agora) fui escavar mais e descobri que o mesmo Pedro Reis, agora acompanhado por Sara Rodrigues e Filipa Santos, publicou um outro, com um título igualmente comprido: "Concepções sobre os cientistas em alunos do 1º ciclo do Ensino Básico: “Poções, máquinas, monstros, invenções e outras coisas malucas”". Encontra-se aqui, e foi daí que saquei o desenho que decora este post.

Este artigo não é especificamente sobre FC, mas o género faz a sua aparição, o que aliás o próprio título já sugere. E analisa as ideias de miúdos bastante mais novos, entre os sete e os dez anos, sobre essa coisa de cientistas e ciência.

Também encontrei aquilo que mais que provavelmente terá dado origem a toda a linha de investigação, a tese de doutoramento em Educação - Didática das Ciências do Pedro Reis. O título deste é mais curto, mas vem acompanhado de subtítulo. A nós basta-nos o título: "Controvérsias Sócio-Científicas: Discutir ou não Discutir?" Está aqui. Esta tese não li (são 488 páginas, calma!... talvez um dia), mas folheei-a o suficiente para perceber que dela consta a investigação que deu origem ao primeiro dos dois artigos, incluindo os contos publicados nele e mais alguns.

Imagino que a tese de doutoramento seja um bocadinho indigesta, porque é o que as teses de doutoramento geralmente são, mas os artigos são leitura muito interessante. Não só pelos contos que, apesar de literariamente maus, como seria de esperar (são miúdos que muito provavelmente nunca antes tinham escrito ficção, alunos que não foram escolhidos por mostrarem alguma predisposição específica para a literatura mas por terem a disciplina de Ciências da Terra e da Vida (os mais velhos) ou por pertencerem às turmas selecionadas (os mais novos)... e de resto, a generalidade dos contos que eu escrevi nessas idades também eram literariamente maus. Digo, muito maus. E ó, o engraçadinho aí da fila de trás a dizer que ainda são! Eu ouvi.), têm de facto interesse, extraliterário, digamos, mas por tudo o que transparece dos estudos e pelas conclusões que o Pedro Reis (e coautores) deles tiram. Mas vamos por partes.

Comecemos pelos contos dos miúdos.

Para quem escreve e aprecia FC, como eu, ler os contos dos miúdos (em especial dos mais velhos) fornece uma panóplia de informações sobre os conceitos que eles têm do que é, afinal, isso de ficção científica. Nada de muito inesperado: eles olham a FC com olhos de cinema, televisão e jogos de computador, não da literatura. Não sei se algum deles leu algum livro de FC antes de escrever a sua história mas, francamente, não parece. E, francamente, é naturalíssimo que assim seja: quantos livros de ficção científica, identificados como tal, veem vocês à venda na vossa livraria favorita? Zero, certo? Pois. Mas é interessante ver que histórias eles arranjaram e o que associam à FC. Interessante e de certa forma também um pouco surpreendente pela antiguidade dos conceitos. As histórias dos miúdos estão muito mais próximas da FC do início do século XX do que daquela que se faz hoje. Porquê? Boa pergunta, a que o amigo Reis não responde porque não é esse o foco do seu estudo, mas aposto que a culpa cai redondinha nos jogos de computador e nos desenhos animados (é que nem o cinema de FC atual usa conceitos tão antiquados) a que aquela malta é exposta enquanto vai crescendo, a par da própria escola. Essa ideia, aliás, fica reforçada com o artigo sobre os miúdos mais novos, onde se encontram mais ou menos os mesmos conceitos, igualmente antiquíssimos.

Estes artigos deixaram-me a pensar. O Pedro Reis queixa-se, com absoluta razão, e como é evidente já estou a falar das conclusões, de que o material a que os miúdos são expostos distorce profundamente a conceção que fazem da atividade científica e de quem são e como trabalham os que a ela se dedicam. E alerta que isso pode ter consequências graves tanto na compreensão futura da ciência, como no eventual desenvolvimento de tendências anticientíficas e anti-intelectuais, com o que isso pode ter de catastrófico para o futuro das nossas sociedades. Imaginem os EUA de hoje, mas em pior.

E deixaram-me a pensar também que se calhar nós, os que nos dedicamos mais a sério à ficção científica, por menos poder que individualmente tenhamos no grande esquema das coisas, temos ainda assim alguma responsabilidade de não ceder a fórmulas antigas, distorcidas e fáceis e apresentar a atividade científica mais como ela é na realidade: feita por gente, não por títeres de papelão, feita em equipa, não por génios tresloucados enfiados sozinhos na cave, feita por homens e mulheres, não exclusivamente por homens de cabelos brancos enfiados em batas igualmente brancas. É que continuam, ainda hoje, a ser produzidas ficções assim. E se calhar, só se calhar, está mais que na hora de enterrar de uma vez por todas o cientista frio, solitário, solipsista e sociopático, ou pelo menos de usar esse velhíssimo cliché para o virar contra si mesmo.

Para já, parece-me que seria bom se os que escrevem e editam FC lessem estes artigos do Pedro Reis. Tenho quase a certeza de que a maioria acabaria por aprender qualquer coisa com eles. Eu certamente aprendi.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Lido: O Dia Perfeito

O Dia Perfeito, de um Vergílio Alberto Vieira que eu não só nunca tinha lido como de quem nunca sequer tinha ouvido falar (e de quem, se tudo correr bem, nunca mais na vida lerei uma palavra que seja), é um exercício de estilo. E um exercício de estilo muitíssimo pretensioso, ainda por cima. Um exercício de estilo praticamente vazio de conteúdo (há umas vagas referências a um cancro, mas que pouca importância têm) e absolutamente preocupado com a forma, abordagem que eu considero tão má como a daquelas ficções que só se preocupam com o enredo, esquecendo-se de que literatura também é forma. Mas mostremos. Nada como uma breve citação para melhor ilustrar o que isto é:

Ao patamar superior, os braços. A doer. Apeteceu-lhe descer ainda. Entregar os passos a
quando a chave. Oleada de silêncio. Impôs-se. O primeiro volteio. E a breve ocultação de sombra pelo soalho.

Sim, aquele parágrafo está mesmo assim, não é gralha. Julgo que não custa perceber por que motivo eu considero este, de muito longe, o pior texto de todos os que compõem esta antologia. Há quem aprecie experimentalismos vácuos, malabarismos verbais sem nada que os sustente, esta noção disparatada de que literatura é feita de palavras e de mais coisíssima nenhuma. Pois que sejam felizes. Visto daqui, este tipo de coisa tem precisamente o mesmo valor da mais mal escrita literatura pastilha-elástica que se encontra aos pontapés no Wattpad: é muito, muito mau.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Lido: Narrativa Sombria, Mais Sombrio Narrador

Há contos que não são nada aquilo que deles se espera. Bem sei que comecei uma opinião com uma frase muito parecida há pouquíssimo tempo, mas convenhamos que pegar num conto com o título de Narrativa Sombria, Mais Sombrio Narrador e descobrir uma história carregadinha de humor e fina ironia é caso para um pequeno desabafo como este.

Mesmo sendo o humor razoavelmente negro (sombrio, diria até) e tendo o conto muito de insólito. Trata-se de um daqueles contos, muito em voga no século XIX e início do XX, nos quais um grupo de cavalheiros se reúne para contar histórias. Villiers de l'Isle-Adam, no entanto, não nos apresenta a história de fantasmas ou espantosas sobrenaturalidades que tantas vezes é o resultado literário de tais reuniões, mas sim uma história relativamente prosaica sobre um duelo de honra, ao qual o narrador da história teria servido de testemunha.

Contudo, e é aqui que entra tanto a ironia como o insólito, tudo é encarado pelos ouvintes como se de uma encenação teatral ou uma criação dramatúrgica se tratasse. Não que o duelo em si mesmo tivesse sido uma farsa; pelo contrário, dele resultaram mortes. Mas mesmo assim, toda aquela gente só parece interessada em discutir os méritos do enredo, os clichés, as qualidades histriónicas dos "atores," por aí fora. Adam parece rir de dois coelhos com uma só cajadada: do artificialismo e alienação das gentes ligadas ao teatro, por um lado, e da teatralidade fundamentalmente ridícula dos duelos de honra por outro.

Outra forma de olhar para esta história poderá encontrar nela uma certa fragilização do tecido da realidade, o que colocaria Adam como predecessor de algo que foi desenvolvido com grande profundidade, várias décadas mais tarde, por muitos escritores de ficção científica, com Philip K. Dick à cabeça. Mas pessoalmente duvido que fosse essa a intenção do autor. Seja como for, esta é uma história com claro interesse.

Conto anterior desta publicação:

Lido: Os Dois Viajantes

Lídia Jorge apresenta o único conto inédito entre os trinta que compõem esta antologia. E é um conto fantástico. O protagonista de Os Dois Viajantes é um engenheiro de estradas, como não se cansa de repetir nesta narrativa em primeira pessoa, que um belo dia é chamado à terra natal, uma aldeola qualquer perdida algures, por um velho amigo de infância que se encontra moribundo. E que lhe quer, o amigo? Vê-lo? Não. Quer que lhe confirme que na sua vida existiu realmente um prodígio, que este não foi mero fruto de uma imaginação gabarola, que ele realmente conseguiu levantar um comboio à pura força de braços. Não que este elemento insólito fique inteiramente assente como facto provado; o fantástico aqui é daqueles que pretendem deixar no ar alguma dúvida. Todorov acenaria a sua aprovação. E vem acompanhado, falo do fantástico, por uma prosa palavrosa, labiríntica, mas de qualidade no trato da língua. Há quem goste de prosa assim, há quem não goste nada; para mim, é um estilo que, não havendo muito cuidado, facilmente se pode tornar cansativo em textos longos. Mas como este não o é funciona bastante bem.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Lido: D. Pedro I e... Último

Por iniciativa de Rogério Amaral de Vasconcellos, o segundo universo partilhado mais longevo da ficção especulativa em língua portuguesa foi sendo desenvolvido no Brasil entre 2003 e 2005 (o primeiro é o da Intempol, também predominantemente brasileiro). A ideia base andava algures entre uma ficção científica mais ou menos ufológica e o misticismo: num contexto de universos paralelos, viagens no tempo e linhas históricas alternativas (ecos da Intempol?), uma entidade chamada Zelador abduzia indivíduos e com eles realizava experiências de alteração histórica. Chamava-se SLEV e foram publicados 29 ebooks em PDF, contendo ficções curtas que deverão ter dimensões entre a noveleta e a novela. Não sei com certeza porque só tive acesso a este D. Pedro I e... Último (bibliografia).

Nesta noveleta de Gabriel Bozano, carregada de ação e com uma pegada pulp muito evidente (o que, de resto, não deve ser caso único nesta série, bem pelo contrário), a intervenção alienígena vai alterar a história do Brasil mesmo no seu início enquanto estado independente quando aquele que na história verdadeira foi D. Pedro I, o primeiro imperador do Brasil, é abatido por uma arma de raios no preciso momento em que começa a dar o celebérrimo grito do Ipiranga. E como resultado surge uma linha histórica alternativa em que o Brasil se mantém colónia, sim, mas não de Portugal; da Inglaterra. Outro resultado é o desaparecimento do assassino; o primeiro paradoxo temporal a surgir na história... mas não o último.

Toma então a história uma feição bem próxima do steampunk clássico, pois de repente vemo-nos numa colónia inglesa em plena época vitoriana sem no entanto sairmos do Brasil, e até há tecnologias demasiado avançadas para a época e tudo. Aqui, o enredo torna-se ainda mais rocambolesco, envolvendo uma caçada a um pássaro gigante mais ou menos mitológico (parcialmente conduzida por pelo explorador Livingstone, nada menos), que não era bem o que parecia e a partir daí o enredo só fica mais enredado até ao fim.

Para quem gosta de histórias pulp rocambolescas, esta é um pratinho cheio. Apesar das múltiplas oportunidades para perder o fio à história, Bozano consegue amarrá-la razoavelmente bem e o final é realmente bom, rematando a história a contento e de uma forma puramente de ficção científica.

Mas nem tudo é satisfatório, por motivos objetivos e subjetivos. Pelo lado daqueles, a prosa não é a melhor, incluindo mesmo alguns erros dificilmente perdoáveis ("Há alguns metros dali", por exemplo), que demonstram a falta que faz uma revisão profissional, aqui inexistente, e incluindo também uma citação em inglês que devia ter sido passada por alguém que conhecesse bem a língua antes de ser publicada (e não, não é lá por haver escritores anglófonos de renome que estraçalham a língua portuguesa quando tentam usá-la que nós podemos pagar-lhes na mesma moeda). Os motivos subjetivos prendem-se com o meu gosto pessoal que, como quem me lê com regularidade sabe bem, não vai nada à bola com histórias pulp que não tenham qualquer coisa que as eleve acima do que é normal nessa forma de conceber ficções. Esta até tem, mas não chega. Ou por outra: chega para que eu não a classifique como uma má história, mas não chega para que a ache boa.

Este livro foi-me fornecido pelo autor.

Lido: A Lição de Inglês

Às vezes há contos enganadores. Ao abrir esta história de Maria Ondina Braga, de quem julgo só ter lido algumas histórias infantis na idade própria (e lembro-me vagamente de ter gostado) e um conto intitulado Estação Morta no ano passado, facilmente se julgaria estarmos perante uma história de terror. O ambiente está todo lá: noite escura e tempestuosa, telefonema misterioso vindo do nada, feito por uma mulher com umas tiradas que facilmente se poriam na conta de alguma espécie de fantasma ou demónio, por aí fora. Mas com o desenrolar do conto, essa impressão inicial vai-se desvanecendo no mundano de uma professora de inglês que é procurada por outra mulher que pretexta querer aprender a língua o quanto antes porque, ao que parece, houve um inglês que a fez sair da modorra insatisfatória de um casamento infeliz e a levou a querer partir para bem longe. A forma como Maria Ondina Braga vai tecendo os fios da narrativa dest'A Lição de Inglês é realmente boa, ainda que não seja difícil imaginar que um leitor particularmente apreciador das ficções sobrenaturais possa acabar por se sentir algo defraudado. Eu, que não sou grande fã de contos mundanos sobre relações amorosas, felizes ou infelizes, fiquei impressionado com essa faceta deste texto. Quanto ao resto, pareceu-me competente, mas não posso dizer que me tenha enchido as medidas. Questão de gosto pessoal.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Lido: Imaginários 1

Quando a Draco publicou em simultâneo este livrinho e o Imaginários 2 (que tem conto meu), certamente não estaria nos planos transformá-los numa série. No entanto, o sucesso comercial destas duas antologias levou a que fosse isso mesmo o que aconteceu, acabando por ser publicadas 5 entre 2009 e 2012. Fruto de uma iniciativa de Tibor Moricz, Saint-Clair Stockler e Eric Novello, todos eles escritores e todos com contos também no segundo volume (que inclui ainda histórias de mais três autores portugueses), que inicialmente era independente e só depois foi apoiada pela Draco, este Imaginários 1 (bibliografia) junta alguns dos autores mais relevantes da ficção especulativa brasileira, cada um em seu estilo, a dois ou três autores menos experientes.

O resultado é um pouco irregular, mas globalmente positivo. Farto-me de dizer que uma antologia vale a pena se incluir pelo menos um conto bom; pois esta inclui pelo menos dois contos excelentes, o da Martha Argel e o do Carlos Orsi, e vários outros contos entre o bom e o muito bom, acompanhados por alguns mais fracos. Vale, portanto, plenamente a pena.

Contrariamente ao que a capa poderia levar a crer, não se trata de uma antologia de fantasia. É uma antologia que contém fantasia, tal como contém ficção científica, horror e uma ou duas histórias mais difíceis de encaixotar. É variada, portanto, e também não tem tema comum. Há leitores que não gostam muito quando, num livro destes, cada conto é uma surpresa quase total, preferindo uma certa uniformidade temática ou de género. São gostos. Eu não me importo nada, desde que os contos sejam bons. E estes, na sua maioria, são. A antologia pode não ser mais que a soma das partes, o que por vezes acontece com as temáticas (o caso mais extremo é o desta antologia, muito mais do que a soma das partes) mas por vezes basta somar as partes para o resultado ser agradável. É o caso.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:
Este livro foi-me fornecido pela editora, em pagamento pelo meu conto publicado no Imaginários 2.

Lido: O Quarto

De Herberto Helder esta antologia apresenta O Quarto, um conto razoavelmente curto, com subtis elementos fantásticos e surreais, que consiste basicamente de um diálogo mais ou menos platónico no qual o protagonista explica à outra personagem que planos tem para a sua própria morte. É uma história que explora a ideia de raízes e, de certa forma, a velha noção cristã de que "do pó viemos, ao pó voltaremos." Não vale grandemente a pena escalpelizar aqui as ideias contidas no conto; elas ficam bastante claras com a leitura, com exceção das religiosas, que são contraditórias, pelo menos à superfície: o protagonista primeiro afirma que não acredita em nada para na página seguinte se afirmar religioso. Isso, no entanto, é secundário. O mais importante é que se trata aqui da morte e da espécie de morte em vida que são as crescentes limitações, por vezes autoimpostas, que nos vão sobrecarregando à medida que avançamos em idade. De raízes. Do chamamento da Terra a que acabaremos inevitavelmente por ceder. Não é um conto particularmente agradável de ler. Mas é daqueles contos que nos deixam a pensar, pelo menos até voltarmos a ser distraídos pelas campainhas multicoloridas do mundo moderno.

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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Lido: E Atenção: Notícia Urgente!

Pelo menos desde o dr. Frankenstein e o seu monstro, a ficção científica está repleta de histórias cautelares sobre os avanços cientifico-tecnológicos quando não vêm acompanhados por uma ética rigorosa, ou quando, simplesmente, escapam ao controlo dos seus criadores. E não me refiro apenas às múltiplas histórias sobre cientistas loucos, embora estas também se insiram neste grupo. Falo dos milhares de histórias que mostram as coisas a correr mal por causa do impacto de alguma nova tecnologia ou de alguma experiência. É natural que sejam tantas, visto a FC lidar com a ciência e a tecnologia e, como qualquer escritor iniciante sabe, histórias em que as coisas correm mal tendem a ser bastante mais interessantes do que histórias em que tudo corre bem. Mas isso tem consequências, e algumas são sérias. Vou falar em breve aqui na Lâmpada de algumas dessas consequências, porque tenho andado a ler uns artigos científicos muito interessantes. Depois explico. Por agora fica este preâmbulo só para dizer que:

E Atenção: Notícia Urgente! (bibliografia) é mais uma dessas histórias. Uma história extremamente cínica, que abre numa reportagem de uma estação de rádio, acompanhada por uma entrevista com o cientista responsável, sobre um grupo de ativistas contra os organismos geneticamente modificados que se manifesta à porta de uma estufa onde se desenvolve pesquisa sobre esses organismos. Romeu Martins faz tudo degenerar num paroxismo de violência, que interrompe a emissão de rádio, passando depois a uma segunda parte composta por uma conversa entre o cientista entrevistado na primeira parte e um empresário, na qual ficamos a saber que tudo, violência incluída, foi uma experiência com vista ao desenvolvimento de uma arma. Nem cientista nem empresário mostram o mais leve sinal de escrúpulos. As centenas de mortes e a destruição de uma instalação de pesquisa? Danos colaterais, insignificantes perante os lucros potenciais.

Não foi conto que me tivesse agradado muito. Há no distanciamento primeiro do relato radiofónico e depois da conversa fria entre os dois responsáveis, algo que a meu ver enfraquece a história. Ela seria mais forte (mas também mais longa, o que me parece ter sido um fator tido em conta na decisão de escrever a história assim) se tivesse personagens diretamente envolvidas nos acontecimentos, que os sentissem na pele. Assim, ficamos com alguns infodumps, um relato em geral distanciado de toda a verdadeira ação que o conto contém e com uma conversa entre dois sociopatas, na qual recebemos mais infodumps. Não me agrada particularmente. Não é um mau conto, até é um conto interessante, mas não me parece que chegue a ser bom.

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Lido: Nem Tudo é História

Depois de uma longa série de contos neorrealistas, ou pelo menos inspirados pelo neorrealismo, ao chegarmos à história de David Mourão-Ferreira encontramos algo de diferente. Nem Tudo é História é uma fantasia onírica, descrevendo uma rocambolesca série de peripécias que acontecem ao protagonista-narrador e a uma mulher que o acompanha "noites e noites a fio". Tudo muito carregado de imagens cinematográficas, repleto de metamorfoses e das mudanças surreais de cena em que os sonhos são pródigos. E tudo escrito e descrito de uma forma concreta e detalhada que lhe confere solidez, mesmo que o texto não desconheça a poesia, sendo a experiência de leitura temperada pelo elemento surpresa e pela interrogação sobre onde quererá o escritor chegar com tudo aquilo. Será apenas a descrição de um sonho, ou haverá por trás dessa superfície mais alguma coisa?

E então chega-se à penúltima página e descobre-se que sim, há mais alguma coisa. Há política, alguma, há um comentário sobre a forma como a História com maiúscula se interseta com as histórias pessoais de todos nós e há, no fundo, uma reflexão muito pertinente sobre a natureza da literatura, sobre os eternos ziguezagues que ela faz entre o inventado e o real. É um conto francamente interessante, este. E muito, muito bem escrito.

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domingo, 30 de julho de 2017

Lido: E de Espaço

Ray Bradbury é geralmente visto como um escritor de ficção científica, mesmo quando o colocam num patamar algo especial entre os escritores de FC (há quem lhe chame, por exemplo, o poeta da FC). Essa designação tem o problema de poder levar o leitor pouco conhecedor a julgar que tudo na obra de Bradbury é ficção científica, o que está bastante longe de ser verdade. Bradbury escreveu FC, é certo, e as suas obras mais (re)conhecidas pertencem ao género (Fahrenheit 451, Crónicas Marcianas), mas escreveu também horror, tanto do verdadeiro como de uma espécie particular de horror doce, centrado na nostalgia da infância e nas brincadeiras de Halloween, que hoje provavelmente se incluiria na fantasia urbana, escreveu também fantasia, alguma da qual se fosse escrita mais tarde e por um escritor latino-americano receberia com toda a certeza o rótulo de realismo mágico, e escreveu também textos que pouca ou nenhuma relação têm com os vários géneros da ficção especulativa e geralmente se reúnem sob a designação de americana, muitas vezes juvenil. E escreveu muitas coisas que se situam algures entre estas várias vertentes da arte de criar histórias com palavras.

Pois este E de Espaço (bibliografia) é, apesar do título, um bom apanhado dessas várias vertentes da arte de contista de Bradbury. Não as mostra a todas, mas mostra a maior parte. Não procura reunir apenas os contos mais extraordinários do autor, mas inclui pelo menos um, talvez dois, a que soma um punhado de outros contos muito bons e muito poucos (talvez mesmo só um) contos abaixo do bom. Não será uma obra-prima mas é uma coletânea muito satisfatória, especialmente tendo-se em conta as datas de produção da maior parte destas histórias, o que permite captar os ecos que nelas existem da Segunda Guerra Mundial, a qual tinha decorrido poucos anos antes.

Sim, porque se é certo que a ficção científica e, em geral, todas as vertentes das literaturas do imaginário, são muitas vezes acusadas de serem escapistas, não é menos certo que essa é uma leitura extremamente superficial, pois o contexto em que são produzidas, seja histórico, seja político, seja mesmo literário ou editorial, marca-as com grande clareza para quem souber ler o que está abaixo da superfície. Mesmo quando as coisas pretendem de facto ser escapistas, contêm informação abundante sobre os contextos histórico e ideológico que são vistos pelos autores como tranquilizadores, o que, indiretamente, informa sobre o que encontram de perturbador nas circunstâncias de que pretendem ajudar a escapar.

E Bradbury não pretende ser escapista, bem pelo contrário.

Eis o que achei dos contos individualmente considerados:

Lido: Ode (Quase) Marítima

Aos moribundos, conta-nos o mito, passa-lhes a vida inteira perante os olhos nos momentos que antecedem a morte. É esse mito, parece, que inspirou Augusto Abelaira a escrever este solilóquio que intitulou de Ode (Quase) Marítima, no qual um homem, um velho, matuta sobre a vida que viveu enquanto o seu cérebro vai aparentemente sendo consumido por um derrame. Não foi texto que me tenha agradado por aí além. Em parte por isso mesmo, porque a ideia já está muito vista, porque solilóquios de moribundos existem aos pontapés na literatura. Em parte porque Abelaira usa aqui um estilo que com toda a franqueza me irrita, entrecortando o texto com uma quantidade apreciável de apartes entre parênteses cuja frequência, curiosamente, vai diminuindo para o fim da história, o que sugere que até ele se foi fartando. E em parte porque é história sem história, sem sombra de enredo, um longo fluxo de consciência, ou talvez de inconsciência, que poderia ser apelativo se ao menos me tivesse conseguido despertar alguma espécie de interesse pelo protagonista. Não conseguiu. Fica um bom tratamento da língua e pouco mais. Há leitores para quem isso basta. Há leitores, até, para quem isso é tudo. Não sou um desses leitores, nem dos primeiros nem muito menos dos segundos.

Contos anteriores deste livro:

sábado, 29 de julho de 2017

Lido: Os Caminheiros

Os Caminheiros, de José Cardoso Pires, e apesar de nada ter de fantástico, é outro conto que me traz à memória as ficções científicas do Telmo Marçal. E não é difícil perceber porquê para quem leia estas e aquele: os caminheiros são gente mergulhada na mais profunda miséria, económica, sobretudo, mas também na miséria humana que a falta de recursos muitas vezes origina. O que aqui é descrito é a venda de um mendigo cego, que ganha a vida (as raspas dela que consegue ganhar, pelo menos) cantando modinhas acompanhadas à viola. Quem o vende é o companheiro de mendicidade, e vende-o com o mesmo tipo de atitude (e desespero) de quem vende uma peça de gado velha e doente. É um conto forte, este, muito baseado em diálogos que vão mostrando ao leitor, aos poucos, quem são e o que pensam as três personagens (o cego, o vendedor e mais tarde o comprador).

Contos anteriores deste livro:

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Lido: A Meia Hora de Sol

Em Portugal, antes do 25 de Abril, houve uma significativa atividade literária de resistência. Uma multiplicidade de autores produziram obras em que refletiam umas vezes mais diretamente, outras menos, o dia-a-dia de quem se opunha ao regime. Nesta antologia há várias dessas histórias e este A Meia Hora de Sol, de Urbano Tavares Rodrigues, é mais uma.

Neste conto, muito curto, a história que se conta é uma história de amor interrompido pela prisão. Urbano não o diz claramente, mas não é difícil adivinhar que é uma prisão política que obriga o casal a passar a comunicar esporadicamente por carta, sempre sujeita aos olhos da censura, e nas raras visitas que a mulher faz à cadeia. E isso, essa falta de privacidade, tem consequências, exacerbadas pela tendência humana para imaginar o que não se sabe e extrapolar a partir de informação insuficiente. Este é outro conto bom, ainda que me pareça demasiado curto para realmente causar impacto. A história depende da psicologia das personagens e esta é-nos dada a pinceladas que talvez sejam demasiado rápidas.

Contos anteriores deste livro:

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Lido: Filosofia Verde

Será muito estranho ler um conto de Agustina Bessa Luís, autora das mais reconhecidas pelos bem-pensantes literários, e lembrar-me dos ambientes do Telmo Marçal, cultor de uma das mais menorizadas facetas da literatura, a ficção científica? Se é, foi o que aconteceu com esta Filosofia Verde. Trata-se de um conto macabro, mas não é bem esse o motivo por que me trouxe à memória as ficções do Marçal. Essa evocação foi questão de protagonistas e de ambiente. Nesta história, aqueles são dois homens (principalmente um) que assumiram como ofício recolher vítimas de morte súbita que caiam fulminadas na rua, numa cidade sem nome mas perigosamente fria, tratando a morte e a degradação da sua própria condição com o mesmo à-vontade fatalista que os protagonistas de Marçal apresentam. Este é uma cidade tão assolada pela morte que permite a existência de quem ganhe a vida simplesmente ficando de atalaia à espera que alguém caia de repente sem vida na rua, contando depois com as recompensas que familiares imagina-se que chocados mas certamente gratos lhes darão. Trata-se de uma ideia inerentemente fantástica, com tudo a ver com as distopias absolutas que encontramos nas histórias do Telmo Marçal, embora Agustina não torne o facto explícito. É aí que as histórias mais divergem, e também no substrato ideológico que lhes subjaz, pois ao passo que Marçal nunca dá às suas criaturas quaisquer elemento de esperança, não encontra nada que redima as suas personagens, Agustina escreve, no fundo, sobre o valor da amizade mesmo nas piores circunstâncias. E também na qualidade da prosa, pois Marçal, sendo bom no manejo da língua, não chega no entanto perto de Agustina.

Dito isto, vou ter aqui uma decisão a tomar quando chegar a altura de integrar no Bibliowiki as histórias desta antologia: serão os elementos fantásticos neste conto suficientes para merecer inclusão? Felizmente é decisão que pode ficar para mais tarde. Para já, leva a etiqueta, mas mais para não me passar ao lado por distração do que por outro motivo. Depois decidirei em definitivo.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Lido: Balada

De longe vem a tentação que assalta muitos escritores para escolherem falar de animais quando na realidade estão a falar de homens. É o que faz Mário Braga neste breve conto, apesar de não seguir pelo caminho mais comum da fábula mas pelo (neo?)realismo de um conto rural cujo protagonista é um pastor pobre. Ambientado na Serra de Queiró, agreste terra ficcional que lembra a terra fria trasmontana ou talvez as alturas da Estrela, Balada passa-se num inverno intenso, sem pasto, que faz as ovelhas do pastor definharem de fome. O contraste é feito com um rico local, cujo gado não passa necessidades independentemente das intempéries. Contraste de injustiça, naturalmente; que mal fizeram as ovelhas do protagonista para morrerem de fome quando as outras vivem sãs e anafadas? Não serão no fundo todas iguais? São estas as ideias que germinam na cabeça do pastor e o levam a tomar uma atitude. Da fome das ovelhas se fala falando da fome dos homens, e da forma como o que se faz para minorar essa fome corre sempre o risco de acabar traído, não pelos donos do poder, mas por outros homens igualmente miseráveis que, em vez de se unirem para acabar com as desigualdades, são lestos em apontar o dedo aos que violam as normas.

É um conto profundamente político, este, mesmo falando-se apenas de gado. Essa obliquidade era talvez uma necessidade no Portugal de 1948. Mas a verdade é que isso melhora a obra. O óbvio raramente é bom.

Contos anteriores deste livro:

terça-feira, 25 de julho de 2017

Lido: Os Corvos

Se lida de uma certa forma, esta pequena história de Carlos de Oliveira (de que julgo nunca antes ter lido nada) é um conto de horror, e as múltiplas citações, referências e reverências a Edgar Allan Poe que a percorrem de princípio ao fim provavelmente indicam que essa é a leitura certa. Entre o lirismo e a fantasmagoria, Os Corvos descreve uma casa de penhores e Lucas, o seu dono, com uma escrita de grande qualidade. Escrito em primeira pessoa, o conto quase não tem enredo. É daqueles contos que se dedicam a cristalizar um momento especial, ou pelo menos os derradeiros minutos ou segundos que nesse momento acabarão por desembocar. Que momento? Digamos só, para não estragar a surpresa de quem não for demasiado bom entendedor, que o narrador talvez não seja propriamente humano e talvez queira do bom (ou nem por isso) do Lucas algo bem diferente de um penhor. Algo que talvez fosse a última coisa que o Lucas quereria dar.

É mais um bom conto, este. Com apenas duas páginas talvez se pudesse julgá-lo demasiado curto, mas tem a dimensão certa para o que pretende contar.

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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Lido: O Grande Segredo

É curiosa a arrumação dos contos nesta antologia. Já por mais de uma vez contos sucessivos parecem ter sido escolhidos, ou pelo menos encaixados no livro, por forma a realçar o contraste que fazem uns com os outros, mesmo quando, ou até sobretudo quando, os temas são no todo ou em parte comuns.

É o que acontece com este conto de Jorge de Sena e com o anterior, de Sophia de Mello Breyner Andresen. O fundo católico é comum a ambos, e no entanto dificilmente poderiam ser mais diferentes. Enquanto o conto de Sophia é basicamente realista (a menos que se ache que o homem ser fulminado sem motivo tem algo de miraculoso, o que não me parece), o de Sena é fantástico; ao passo que o de Sophia é no fundamental beato, Sena arma-se de iconoclastia e leva-a para dentro de um convento, mostrando-nos uma freira que é visitada por um ele que subtis pistas revelam ser o mesmíssimo Jesus Cristo que Sophia escreve a morrer, mas no conto de Sena não é homem, antes entidade luminosa, aparentemente feita de energia mais ou menos pura. Uma entidade sobrenatural que faz visitas regulares à freira. Uma entidade que, bem longe de estar morta, dificilmente se podia revelar mais viva. E esse é O Grande Segredo a que o título alude, pois só podia ficar em segredo que um Jesus Cristo insubstancial mas luminoso tivesse escolhido uma das suas "esposas" para com ela ter refulgentes encontros sexuais, para grande reverência e não menor inveja das demais freiras.

A iconoclastia, religiosa ou não, diverte-me. O fantástico agrada-me. Se a isso se soma um português de primeira água, como é o caso, só posso achar o conto ótimo.

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domingo, 23 de julho de 2017

Lido: O Homem

Sophia de Mello Breyner Andresen ganhou renome nas letras portuguesas por via da sua criação poética, não da narrativa. E, se este O Homem é típico dessa vertente da sua obra, percebo bem porquê. A narradora em primeira pessoa é uma mulher que deambula pelas ruas da cidade e de repente depara com um homem, pobre mas belíssimo, que olha o céu, imóvel, como se fosse uma representação absolutamente óbvia (tanto que até tem citação bíblica a temperar o refogado) de Jesus Cristo. Sophia ainda remói um pouco, ainda põe a sua protagonista a andar para trás e para a frente, mas é desde logo evidente que acabaria por reencontrar o tal homem, ainda que não o fosse tanto o que aconteceria quando encontrasse. E o que acontece? Pois o homem cai ao chão num lago de sangue, fulminado sabe-se lá pelo quê, num tom de melodrama completo com orfãzinha e tudo (cuja única função na história parece ser amplificar a tragédia) e que a narradora procura alcançar mas sem nunca conseguir. Algo (no conto são os outros, mas serão mesmo os outros?) a impede de alcançar, de tocar Jesus, mesmo afirmando a rematar que ele anda por aí. Há de ser questão de fé.

E nem sequer se encontra neste conto aquele uso preciso da palavra em que os poetas costumam salientar-se, à parte algumas imagens de grande qualidade que sobressaem aqui e ali. No geral, o conto é quando muito mediano. Não fiquei nada impressionado.

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sábado, 22 de julho de 2017

Lido: O Rapaz do Tambor

Tal como acontece em A Lata de Conserva, de Mário Dionísio, neste conto de Fernando Namora a escolha do ponto de vista faz toda a diferença. Como na história de Dionísio, também aqui as duras realidades do mundo são apresentadas ao leitor com a subtileza de serem vistas por olhos ingénuos, ainda que essa ingenuidade não nasça do privilégio socioeconómico mas da infância. O Rapaz do Tambor é isso mesmo, um rapaz, cuja infância é ilustrada por um quadro marcial que a família tem em casa e no qual figura em posição de destaque um tambor. Esse tambor fá-lo sonhar (ao ponto de surgir uma tenuíssima sugestão de fantástico perto do início do conto, demasiado ténue para ter alguma relevância) e é com autêntico júbilo que recebe um tambor de presente.

Entretanto, quem não for totalmente ignorante da realidade histórica dos anos 50 portugueses vai percebendo algumas coisas que o rapaz do tambor não percebe. Vai percebendo que o pai é oposicionista, por exemplo, e tem em casa reuniões clandestinas com outros antifascistas. Percebe — mais cedo que o rapaz, que também acaba por perceber — que uma viagem que o pai faz não é viagem nenhuma mas uma temporada passada nos calabouços da PIDE. Percebe que um súbito ambiente de esperança e agitação perto do fim do conto é motivado pela candidatura presidencial de Humberto Delgado. Percebe, enfim, o contexto. Muitíssimo bem entregue, esse contexto.

E depois chega o fim, um violento murro no estômago do leitor, tão congruente com tudo o resto mas ainda assim surpreendente. Um fim que, sozinho, consegue transformar um conto francamente bom num grande conto. Sim, este é um grande conto.

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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Lido: Mãe Genoveva

Mãe Genoveva é um conto com muito de neorrealista sobre uma mulher, a Mãe Genoveva do título, cuja vida se altera profundamente quando perde um filho, o seu Vicente, num acidente de trabalho numa fábrica. E é aqui que este conto de Vergílio Ferreira se afasta dos últimos, pois o fantástico assoma subtilmente quando aparece na narrativa outro filho, outro Vicente, cujo crescimento a mulher acompanha como se realmente seu filho fosse. Mas há aqui uns detalhes que sugerem que não senhor, esse fantástico é mais aparente que real, e de Vicente o novo Vicente só tem mesmo a vontade de lutar por um mundo melhor. Até que um dia desaparece e é substituído por outro, e por outro, e por muitos outros que Genoveva acolhe maternalmente, transformando-se numa base de apoio para a luta clandestina em tempos de fascismo. Tudo subtilíssimo, tudo, no fundo, todoroviano, pois a dúvida nunca anda muito longe da interpretação, o que as muitas imagens poéticas da prosa de Vergílio Ferreira só realçam. Que tenha de facto havido mulheres assim, algumas levadas ao combate por um sentido de justiça violentado, outras por tragédias pessoais ou familiares provocadas pela repressão e pela exploração, só solidifica melhor a personagem. Sim. Este conto é realmente bom.

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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Lido: A Lata de Conserva

Este conto de Mário Dionísio é praticamente perfeito para ilustrar aquilo que pode servir para pegar num conto sobre a banalidade e fazer com que deixe de ser banal e por isso desinteressante, especialmente pelo contraste que faz com o conto anterior, Desportos de Inverno. De facto, também em A Lata de Conserva a situação é banal. Numa cidade, provavelmente Lisboa, uma jovem ociosa e aborrecida assiste da janela a uma comoção na rua: um lojista que larga a correr atrás de um miúdo, aos gritos, situação que se resolve quando um polícia apanha o perseguido. Percebe-se facilmente que o miúdo roubou uma lata de conserva, mas o que coloca esta história vários furos acima da de Luís Forjaz Trigueiros é principalmente uma coisa: a perspetiva escolhida por Dionísio, a da jovem privilegiada, para olhar uma cena em que a miséria e a fome se confrontam com os mecanismos mais ou menos bem oleados de uma certa sociedade, cria uma subtileza na denúncia das desigualdades sociais que eleva a banalidade da cena a um patamar diferente. Este é um caso de um conto muito bem construído, no qual o ponto de vista faz toda a diferença. Também está bastante bem escrito, mas isso acaba por ser algo secundário, mesmo ajudando. E assim uma história banal ganha real interesse. Não é esta a única maneira, mas é uma maneira.

Contos anteriores deste livro:

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Lido: Desportos de Inverno

Há um tipo de conto que faz as delícias dos apreciadores da literatura realista mas de que eu nunca consegui gostar, a menos que estejam mesmo extraordinariamente bem escritos e concebidos. São os contos mundanos, que descrevem pequenos sucessos e insucessos do quotidiano. Os apreciadores da coisa deliciam-se com o reconhecimento de paisagens e personagens, adoram aquela sensação de ah, eu conheço um tipo igualzino a este gajo, uma gaja que é escarrapachada esta tipa, especialmente quando os escritores as situam em paisagens que lhes são familiares. A mim, isso enche-me de tédio, com a ressalva expressa acima. De banalidade tenho eu a vida demasiado farta para ainda gostar de apanhar com ela na literatura.

Pois bem, este Desportos de Inverno, de um Luís Forjaz Trigueiros de quem julgo que nunca antes tinha lido nada, é conto recomendável apenas aos apreciadores da banalidade. Uma cena de engate frustrado num café qualquer de Lisboa, mediano na escrita e banal nas personagens, nada nele me despertou o interesse. Não é um mau conto, entenda-se; é só um conto que me deixou uma certa sensação de tempo perdido.

Contos anteriores deste livro:

domingo, 16 de julho de 2017

Lido: Maria Altinha

Manuel da Fonseca, como Alves Redol, foi um dos escritores mais conotados com o neorrealismo e, não por acaso, o seu conto que é aqui incluído tem muitos pontos de contacto com o que o antecede. Muda o género, Maria Altinha é mulher e o rapaz de Redol é um homem mas, tal como este, também a personagem de Fonseca é pobre e trabalhadora agrícola, e por isso sujeita às violências quotidianas que acompanham essa condição no Portugal de meados do século XX. Mas o género tem importância, e a história que Manuel da Fonseca apresenta é a história de uma violação.

Sim, o conto é duro, é violento, está bem escrito e bem elaborado, mesmo não sendo daqueles contos que esmagam pela perfeição literária. Mas tenho sérias dúvidas de que consiga refletir fielmente toda a carga da situação. Manuel da Fonseca é um homem a escrever sobre uma violência sofrida sobretudo por mulheres. Percebe-se que se solidariza, mas não a sente. Pelo contrário, parece até mostrar alguma compreensão, mesmo que renitente, pelo violador e aquilo que o move. Parece querer dizer "os factos da violação são estes, tirem as vossas conclusões", mas ao mesmo tempo também parece remeter para a condição social a maior parte da responsabilidade pelo ato de violência sexual. E tudo isto me levanta reservas. Foi um conto que li com mais incómodo do que gosto, e não um incómodo bom.

Contos anteriores deste livro:

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Lido: Reflexões do Diabo

O que diria o Diabo, esse mesmo, o Mafarrico, o Coisa-Ruim, o isto e aquilo que o panteão cristão (e não só) desterrou para as fogosas profundezas do Inferno, se alguém lhe pedisse opinião sobre o que dele se vem dizendo por aí ao longo dos séculos? Coisa boa não seria de certeza, certo? Aliás, todos nós faremos uma ideia razoavelmente segura dos argumentos de tal criatura que, com grande probabilidade, não andarão longe dos que João Cerqueira aqui apresenta.

E talvez seja precisamente por aí que este livrinho (sim, "inho", que são meras 45 páginas num tipo que ainda por cima é razoavelmente corpulento) mais peca, com perdão da graçola (pecar, topam? Hi hi hi... Hi... OK, desculpem). É que o que o Diabo nos diz nestas Reflexões do Diabo (bibliografia), quase sempre, são coisas que criaturas bem menos diabólicas, bem humanas, feitas de carne, osso e algumas ideias, vêm dizendo há séculos. Elaboraram-se teologias inteiras com base nessas coisas e quando se saiu do âmbito teológico também serviram de base a muita filosofia. Pois o tema será superficialmente a defesa do Mafarrico, mas na verdade é da natureza humana e as suas falhas e insuficiências que se trata, as quais o diabólico narrador assaca, com total naturalidade, a outrem e que, no fundo, bem conhecem todos os que nutrem alguma curiosidade pelo mundo e as criaturas que nele habitam. Só chocará minimamente, julgo eu, quem pelos dogmas religiosos sinta verdadeiro fanatismo. Bem sei que existem, mas está muito longe de ser o meu caso.

Nada há aqui, portanto, de muito novo. Há uma forma humorística de apresentar as coisas, que por vezes tem real graça, há um texto com qualidade, há as ilustrações de Horácio Frutuoso, bastante interessantes mesmo que por vezes pareçam não ter muito a ver com o texto, três coisas a elevar este livro acima da mais completa banalidade. Mas não muito acima, infelizmente. Foi livro que soube a pouco, e não só pela extensão.

Este livro foi, se bem me lembro, oferta no âmbito da promoção "pague 2, leve 3" que a editora faz há largos anos. No fundo foi comprado, portanto.